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Indústria

A fábrica tem dados a mais e informação a menos: o problema dos vinte Excels

A maioria das fábricas não tem falta de dados: tem dados espalhados por ERP, Excels e papel. Mostramos o que custa a dispersão e por onde começar a arrumá-la.

julho de 2026 · 13 min de leitura

A queixa que se ouve nas fábricas é quase sempre a mesma: “não temos dados”. Na maioria dos casos é falsa. A fábrica tem dados de sobra. Tem o ERP com as encomendas e os stocks, tem o Excel do planeamento, o Excel da qualidade, o Excel que o chefe de turno mantém porque não confia nos outros dois, tem folhas de registo em papel presas com um íman ao quadro da linha, e tem o email, onde tudo isto circula em anexos com nomes como producao_final_v3_REVISTO.xlsx.

O que falta não são dados. É uma versão única da verdade: um sítio onde cada indicador tem um valor, uma definição e um dono. Sem isso, os dados existem mas não informam, e a empresa paga essa diferença todas as semanas, em horas de gente qualificada e em decisões adiadas.

Este artigo mede esse custo com os números que resistem a verificação, desmonta um número famoso que não resiste, e mostra por onde se começa a arrumar a casa sem trocar de sistemas.

O mesmo indicador, três valores, uma reunião inteira

A cena repete-se em fábricas de setores muito diferentes. A reunião de produção abre com um indicador, digamos a taxa de rejeição do mês. O responsável da qualidade traz um valor, tirado do ficheiro dele. O diretor de produção traz outro, tirado do relatório que o planeamento monta a partir do ERP. O controller traz um terceiro, porque fecha o mês com critérios de custeio próprios.

Os vinte minutos seguintes não se gastam a decidir o que fazer com o número. Gastam-se a discutir qual dos três números é o certo. E como ninguém consegue provar na hora de onde veio cada valor, a reunião termina com a pior decisão possível: alguém fica de “verificar e confirmar”, e o assunto volta na semana seguinte, muitas vezes com um quarto valor.

Repare no que aconteceu: a empresa tinha três medições do mesmo fenómeno e saiu da reunião com menos certeza do que se tivesse uma só. Dados a mais, com definições e donos a menos, produzem menos informação do que dados poucos e arrumados.

Ninguém decidiu ter vinte Excels; eles acumulam-se

A dispersão não resulta de má gestão. Resulta de decisões razoáveis tomadas uma a uma:

  • O ERP foi comprado para a parte comercial e para os stocks, e nunca cobriu bem o chão de fábrica. Onde o ERP não chega, nasce um Excel.
  • Cada Excel nasce para resolver um problema real de uma pessoa real: o chefe de turno que precisa de registar paragens, a qualidade que precisa de acompanhar reclamações, o comercial que quer ver as encomendas “à maneira dele”.
  • Como os ficheiros não falam entre si, cada um copia dados dos outros. Cada cópia é uma bifurcação: a partir desse momento, os valores divergem em silêncio.
  • O email transporta as versões. Ao fim de um ano, ninguém sabe se o ficheiro que tem aberto é o mais recente, e a única forma de saber é perguntar, o que custa mais uma interrupção e mais tempo perdido.

O papel agrava o padrão mas não é a causa. Uma folha de registo em papel bem desenhada, que alguém passa a digital todos os dias para um sítio único, vale mais do que cinco Excels sofisticados que ninguém reconcilia.

Quanto tempo custa: quase um dia por semana, segundo a McKinsey

O número mais sólido sobre este custo vem do McKinsey Global Institute, no relatório “The social economy”, de 2012: os trabalhadores do conhecimento gastam 19% da semana de trabalho a procurar e a reunir informação interna. É praticamente um dia por semana. O mesmo estudo atribui outros 28% da semana à gestão de email, o canal por onde os tais anexos circulam.

O estudo olha para funções de escritório, não para o operador na linha. Mas numa PME industrial as pessoas que procuram e reconciliam informação são exatamente as mais caras e mais difíceis de substituir: o diretor de produção, o responsável de qualidade, o planeador, quem fecha o mês. Se três ou quatro dessas pessoas perdem perto de um dia por semana a caçar valores entre ficheiros, a empresa está a pagar salários qualificados para fazer trabalho de arquivo.

Vale a pena fazer a conta em casa, com os salários reais e uma estimativa honesta das horas. É habitual o resultado surpreender, e é habitual a estimativa inicial (“perdemos algum tempo com isso”) ficar bastante aquém do que uma semana de observação mostra.

As “2,5 horas por dia à procura de informação” são uma estatística zombie

Quem pesquisar este tema vai cruzar-se com um número muito mais dramático: “os trabalhadores passam 2,5 horas por dia, 30% do tempo, à procura de informação”. Repete-se de apresentação comercial em apresentação comercial, quase sempre atribuído à IDC.

O número existe, mas não é o que parece. Vem de um white paper da IDC de 2001, “The High Cost of Not Finding Information”, de Susan Feldman e Chris Sherman, e o próprio documento o apresenta como uma estimativa geral, não como uma medição. O investigador Martin White reconstruiu a cronologia do mito e mostrou como a estimativa de 2001 se foi repetindo de citação em citação até virar “facto”. Entretanto, os estudos posteriores da própria IDC apontaram para valores bastante mais baixos:

AnoOrigemValorO que é
2001IDC, “The High Cost of Not Finding Information”2,5 h/dia (30% do dia)Estimativa geral assumida no próprio paper, não uma medição
2003IDC, estudo posteriorMais de 5 h/semanaEstudo posterior da IDC
2011IDC, estudo posterior8,8 h/semana (cerca de 1 h/dia)Estudo posterior da IDC
2012McKinsey Global Institute, “The social economy”19% da semana a procurar e reunir informaçãoAnálise do MGI sobre trabalhadores do conhecimento

Porque é que isto interessa a quem gere uma fábrica? Interessa por duas razões. Primeiro, porque o problema real não precisa de números inflacionados: perto de um dia por semana, medido pela McKinsey, já justifica agir. Segundo, porque a forma como um fornecedor trata os números diz muito sobre como vai tratar os seus. Se a proposta abre com as 2,5 horas da IDC de 2001 apresentadas como facto, o fornecedor não verificou a fonte. Convém perguntar o que mais não verificou.

Portugal: menos de metade das empresas analisa os dados que recolhe

Os dados oficiais confirmam que a dispersão não é um problema exótico. Segundo o inquérito do INE à utilização de tecnologias de informação nas empresas, publicado em 2025, 45,0% das empresas portuguesas fazem análise de dados, mais 6,4 pontos percentuais do que em 2023. Ou seja: mais de metade não os analisa de forma sistemática. No mesmo inquérito, 11,5% das empresas utilizam inteligência artificial e 38,7% compram serviços de computação em nuvem, com 98,8% ligadas à internet.

O retrato europeu mostra onde está o fosso. No inquérito do Eurostat de 2025, 39,9% das empresas da UE com 10 ou mais empregados fazem análise de dados, internamente ou com apoio externo. Na análise feita com pessoal próprio, o fosso por dimensão é claro: 78,8% nas grandes empresas, 27,9% nas pequenas. O valor português de 45,0% compara com os 39,9% europeus, o que coloca Portugal acima da média no agregado. A leitura relevante para uma PME é outra: a análise de dados é prática corrente nas grandes empresas e exceção nas pequenas, e é nas pequenas que os vinte Excels pesam mais, porque não há um departamento inteiro para os reconciliar.

O relatório da Década Digital da Comissão Europeia completa o quadro: com dados de 2023, 53,6% das PMEs portuguesas atingiam pelo menos o nível básico de intensidade digital, ligeiramente abaixo da média europeia de 57,7%; o relatório de 2025 já coloca Portugal ligeiramente acima da média. A meta europeia para 2030 é 90%. O caminho vai fazer-se; a questão é se a sua empresa o faz sobre uma base de dados arrumada ou sobre vinte ficheiros em conflito.

Uma versão única da verdade não exige trocar de sistemas

A reação instintiva ao problema é comprar um sistema novo, “um que junte tudo”. É quase sempre a resposta errada em primeiro lugar. Um sistema novo montado sobre definições que continuam por acordar produz o mesmo conflito de números, agora com uma licença anual associada. E a migração consome meses de atenção de quem menos a pode dispensar.

O trabalho que resolve a dispersão é menos vistoso e mais barato:

  • Definições escritas. É preciso fixar o que conta como paragem, como rejeição, como encomenda entregue. Enquanto cada ficheiro usar a sua definição, os números nunca vão bater certo, com ou sem software novo.
  • Um dono por indicador. Uma pessoa responde pelo valor oficial. Os outros podem calcular o que quiserem, mas há um número que vale.
  • Um registo central que se alimenta do que já existe: o ERP, os ficheiros, as folhas de papel passadas a digital. Os Excels não desaparecem no primeiro dia; deixam é de ser a fonte, para passarem a ser vistas sobre a mesma fonte.
  • Um circuito com datas, para se saber que valor foi reportado, quando e a partir de quê. É o que permite, na reunião, responder em segundos à pergunta “de onde vem este número?”.

É este o tipo de trabalho que descrevemos em o que fazemos: organizar os dados que a fábrica já gera, sem hardware novo nem troca de sistemas. Para mostrar o circuito completo, construímos uma demonstração de organização de dados sobre dados representativos: um modelo de base de dados que faz precisamente isto, transformar registos dispersos numa fonte única consultável. É um modelo de referência, não um projeto num cliente, e serve para ver o destino antes de fazer a viagem.

Por onde começar, sem comprar nada

Quatro passos que qualquer empresa pode dar sozinha, num par de semanas:

  1. Escolha o indicador que gera mais discussões. Não escolha os vinte; comece pelo que mais vezes aparece com valores diferentes em reuniões.
  2. Mapeie onde ele vive. Liste todos os sítios onde esse indicador é registado ou calculado: sistemas, ficheiros, papel, email. O mapa costuma ser mais comprido do que se espera, e esse é o primeiro resultado útil.
  3. Escreva a definição e nomeie o dono. Meia página chega: o que se mede, com que fórmula, a partir de que registo, quem responde por ele. Ponha as pessoas dos três valores na mesma sala até a definição fechar.
  4. Corte as cópias. A partir da definição, uma fonte alimenta tudo o resto. Quem precisar de uma vista própria, constrói-a sobre a fonte, não ao lado dela.

Feito isto para um indicador, o método está testado e o segundo custa metade. E a próxima reunião de produção começa vinte minutos mais tarde no assunto, porque o número já não está em disputa.

Perguntas frequentes

Precisamos de um ERP novo para acabar com os Excels dispersos?

Quase nunca. O conflito de números vem de definições diferentes e de cópias sem dono, e isso não se resolve com uma migração. Resolve-se acordando definições, nomeando donos e criando um registo central que se alimenta do que já existe, incluindo o ERP atual.

O Excel é o problema?

Não. O Excel é uma excelente ferramenta de análise e uma péssima base de dados partilhada. O problema aparece quando um ficheiro pessoal passa a sistema de registo paralelo, com cópias que divergem em silêncio. Excels como vistas sobre uma fonte única funcionam bem.

Quanto tempo se perde realmente à procura de informação nas empresas?

O número mais sólido é do McKinsey Global Institute (2012): 19% da semana de trabalho a procurar e reunir informação interna, perto de um dia por semana. As “2,5 horas por dia” que circulam em apresentações vêm de uma estimativa geral da IDC de 2001 que o próprio paper admite não ser uma medição; os estudos posteriores da IDC apontaram valores próximos de uma hora por dia.

O que é uma “versão única da verdade”?

É a prática de cada indicador ter um valor oficial, uma definição escrita, um dono e uma origem rastreável. Não significa um único software; significa que, quando duas pessoas falam da taxa de rejeição de junho, estão a falar do mesmo número calculado da mesma maneira.

A minha empresa é pequena; isto justifica-se?

É nas pequenas que o custo relativo é maior. No inquérito do Eurostat de 2025, 27,9% das pequenas empresas europeias analisam dados com pessoal próprio, contra 78,8% das grandes. A pequena empresa não tem uma equipa para reconciliar ficheiros; por isso mesmo, arrumar a fonte compensa mais depressa.

Por onde começa um trabalho destes com apoio externo?

Pelo diagnóstico, não pela tecnologia: perceber que dados existem, onde vivem e que decisões deviam alimentar. Só depois se toca em ferramentas. Desconfie de quem propõe a plataforma antes de conhecer a fábrica.


Se quiser perceber quantas versões da verdade existem hoje na sua fábrica, e o que custaria reduzi-las a uma, uma conversa de 30 minutos chega para avaliar. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.

Fontes

Este problema existe na sua fábrica?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua operação. Se fizer sentido, avançamos para uma visita.