Porque é que a obra estoura o prazo: 70 anos de dados dizem que não é azar
Só 8,5% dos projetos cumprem custo e prazo. Os desvios na construção são sistemáticos, não azar, e o histórico das suas obras é a forma de os travar.
Quando uma obra acaba três meses depois do prometido e bem acima do orçamento, a explicação habitual é uma lista de imprevistos: o subempreiteiro que falhou, a chuva, a alteração ao projeto, o material que não chegou. Cada obra tem a sua lista, e cada lista parece confirmar que foi azar daquela obra em particular.
Os dados dizem outra coisa. Os desvios de custo e prazo na construção são tão frequentes, tão inclinados sempre para o mesmo lado e tão estáveis ao longo de décadas que não podem ser azar. Azar seria aleatório: umas obras acabariam abaixo do orçamento, outras acima, e a média andaria perto do zero. Não é isso que acontece em lado nenhum onde alguém se deu ao trabalho de medir.
E se a derrapagem é sistemática, é previsível. É essa a parte que interessa a quem orçamenta a próxima obra: um erro previsível corrige-se, e a matéria-prima da correção já está dentro de portas, nos autos, nas faturas e nos registos das obras anteriores.
Nove em cada dez projetos derrapam, e há 70 anos que o número não mexe
O estudo que mudou a forma de olhar para este problema é de Bent Flyvbjerg, Mette Holm e Søren Buhl, publicado em 2002 no Journal of the American Planning Association. Analisaram 258 projetos de infraestruturas de transporte, num total de 90 mil milhões de dólares, e encontraram derrapagem de custos em 9 de cada 10 projetos. Em preços constantes, a derrapagem média foi de 44,7% na ferrovia, 33,8% em pontes e túneis e 20,4% em estradas.
O achado mais incómodo do estudo não é a dimensão do desvio, é a sua constância. Os projetos analisados estendem-se por cerca de 70 anos, e a precisão das estimativas não melhorou nesse período. Sete décadas de progresso em materiais, máquinas, software de planeamento e formação de engenheiros, e o erro de orçamentação continua do mesmo tamanho e para o mesmo lado. A conclusão dos autores é que a subestimação sistemática não se explica por erro honesto de cálculo.
Importa dizer o que estes números são e o que não são: são grandes infraestruturas públicas, não a moradia, o pavilhão industrial ou o arruamento que uma PME portuguesa constrói. O padrão, como se verá, repete-se noutras escalas, mas cada número deste artigo vale para o universo em que foi medido.
A lei de ferro dos projetos: só 8,5% cumprem custo e prazo
Vinte anos depois, a base de dados de Flyvbjerg em Oxford ultrapassava os 16.000 grandes projetos de todos os tipos. O balanço, publicado no livro How Big Things Get Done (2023), é este: só 8,5% dos projetos cumprem simultaneamente o orçamento e o prazo, e apenas 0,5% cumprem orçamento, prazo e os benefícios prometidos. Menos de metade, 47,9%, consegue sequer cumprir só o orçamento. Flyvbjerg chama-lhe a lei de ferro dos projetos: acima do orçamento, acima do prazo, abaixo dos benefícios, vezes sem conta.
Outras fontes, com métodos diferentes, chegam ao mesmo retrato nos grandes projetos de construção:
| Fonte e âmbito | O que mediu |
|---|---|
| Flyvbjerg, Holm & Buhl, 2002 (258 infraestruturas de transporte) | 9 em 10 com derrapagem; média de 44,7% na ferrovia, 33,8% em pontes/túneis, 20,4% em estradas |
| Flyvbjerg & Gardner, 2023 (16.000+ grandes projetos, Oxford) | 8,5% cumprem custo e prazo; 0,5% cumprem custo, prazo e benefícios |
| McKinsey Global Institute, 2017 (grandes projetos de construção) | Tipicamente 20% mais tempo do que o previsto; derrapagens de custo até 80% |
| KPMG, 2015 (inquérito global a donos de obra) | Só 25% dos grandes projetos concluídos dentro do prazo e do orçamento nos 3 anos anteriores; apenas 31% ficaram a menos de 10% do orçamento |
| KPMG, 2023 (inquérito global ao setor) | Menos de metade dos inquiridos concluiu os projetos dentro do prazo |
Entre o inquérito da KPMG de 2015 e o de 2023 passou quase uma década de BIM, drones e software de gestão de obra. O padrão manteve-se.
Portugal mede o mesmo padrão, com selo do Tribunal de Contas
Não é preciso ir a Oxford. O Tribunal de Contas auditou os contratos adicionais das obras públicas portuguesas entre 2020 e 2022: 2.658 contratos, 382 entidades públicas, e um desvio líquido de 212 milhões de euros, mais 5,72% sobre os 3,7 mil milhões contratados. O ano de 2022 foi o pior da série estatística do Tribunal, iniciada em 2006, com 130 milhões de euros de encargos adicionais. Os trabalhos complementares em estradas da Infraestruturas de Portugal pesaram 61,55% do acréscimo.
Repare-se no que este número mede: apenas os aditamentos formais ao contrato, os “trabalhos a mais” que ficaram documentados. Não inclui atrasos sem expressão contratual nem custos absorvidos pelo empreiteiro para não abrir a discussão. É um mínimo, não um retrato completo.
Quando o Tribunal olhou para empreendimentos individuais, em 2009, o retrato foi mais duro: numa auditoria a cinco obras públicas, o custo final ficou 52,6% acima do previsto, de 401 milhões para 726,4 milhões de euros, com desvios individuais entre 30% e 235%. O dado tem 17 anos e vale como histórico, não como fotografia atual, mas encaixa sem esforço na curva internacional. Num setor que representava 6,9% do emprego em Portugal em 2023, segundo o relatório da AICCOPN sobre dados do INE, isto não é um problema de nicho.
O setor constrói cada vez melhor e estima cada vez igual
Há um contexto que ajuda a perceber porquê. O McKinsey Global Institute calculou em 2017 que a produtividade do trabalho na construção cresceu cerca de 1% ao ano nas duas décadas anteriores, contra 2,8% na economia mundial e 3,6% na indústria transformadora. Fechar esse fosso valeria 1,6 biliões de dólares por ano ao setor a nível mundial.
Um setor que quase não ganhou produtividade em vinte anos é também um setor onde a informação de cada obra morre com a obra. O betão evoluiu, as gruas evoluíram, mas o processo de transformar a experiência da obra anterior num orçamento melhor para a seguinte continua, na maior parte das empresas, a viver na cabeça de duas ou três pessoas.
Se fosse azar, os desvios cairiam para os dois lados
Vale a pena insistir neste ponto, porque é ele que separa a resignação da oportunidade. Erros honestos de estimativa distribuem-se: umas vezes por excesso, outras por defeito. O que os dados de 70 anos mostram é um desvio quase sempre no mesmo sentido, custos para cima e prazos para lá do combinado, com uma dimensão média estável.
A explicação de Flyvbjerg tem dois ingredientes. O primeiro é o viés de otimismo, documentado por Daniel Kahneman e Amos Tversky: quem planeia estima a partir do cenário em que tudo corre como deve ser, e a obra real nunca é esse cenário. O segundo é o interesse estratégico: em concurso, o orçamento otimista ganha, e as consequências chegam mais tarde, já com o contrato assinado. Nenhum dos dois ingredientes desaparece com mais experiência ou melhor software de orçamentação, porque nenhum deles é um problema técnico.
A consequência prática é a que dá título a este artigo: a derrapagem não é um acidente que acontece à obra, é uma propriedade estatística da forma como se estima. E propriedades estatísticas medem-se e corrigem-se.
Governos inteiros já assumem que a estimativa vem otimista
O Reino Unido tirou esta conclusão há mais de vinte anos e escreveu-a nas regras. O Green Book do HM Treasury, com base num estudo da Mott MacDonald de 2002, recomenda aplicar por regra aos custos estimados de projetos públicos um acréscimo por “optimism bias” antes de aprovar o investimento: até 24% em edifícios correntes, 51% em edifícios fora do padrão, 44% em engenharia civil corrente e 66% fora do padrão.
Leia-se bem o que isto significa: um governo assume, por regra e à partida, que a estimativa que lhe chega está errada por defeito, e corrige-a com dados históricos de projetos semelhantes, não por desconfiança de má fé, mas porque a estatística o justifica.
A própria engenharia de custos diz o mesmo por outras palavras. A prática recomendada 18R-97 da AACE International classifica as estimativas por grau de definição do projeto: uma estimativa de Classe 5, feita com 0 a 2% do projeto definido, tem uma margem típica de -50% a +100%; mesmo uma Classe 1, com o projeto quase todo fechado, ainda assume -10% a +15%. Quem dá um preço “à experiência” na fase de estudo prévio está, segundo a referência do próprio setor, a arriscar errar para o dobro.
O antídoto tem nome: orçamentar a partir do histórico
A correção com provas dadas chama-se reference class forecasting, previsão por classe de referência. Em vez de perguntar “quanto acho que esta obra vai custar?”, pergunta-se “quanto custaram, de facto, as obras semelhantes a esta?”. A estimativa interna, feita de dentro do projeto, entra depois como afinação, não como ponto de partida. O método assenta no trabalho de Kahneman e Tversky, foi desenvolvido por Flyvbjerg num artigo de 2006 no Project Management Journal, é endossado pela American Planning Association e foi adotado oficialmente no Reino Unido e na Dinamarca.
Para uma construtora ou empreiteiro PME, a classe de referência não está em Oxford. Está no próprio arquivo: os autos de medição, as faturas de subempreiteiros, os orçamentos entregues e os custos finais de cada obra dos últimos anos. É a diferença entre o estimado e o medido, aplicada à empresa inteira: a memória diz “nessa obra até nos safámos”, os autos dizem quanto foi, ao cêntimo e ao dia. Uma empresa que sabe por quanto as suas obras de determinado tipo costumam fechar acima do orçamentado, e com quanto atraso, tem duas vantagens na próxima proposta: sabe que margem real precisa de pedir, e sabe onde procurar as causas, porque o desvio deixa de ser uma surpresa para passar a ser uma variável.
Nada disto exige software novo nem consultores permanentes. Exige organizar dados que a empresa já gera: orçamentos, autos, faturas, datas. Na maior parte das PMEs essa informação existe toda, espalhada por Excel, pelo programa de faturação e por pastas de email. O trabalho é juntá-la e pô-la a responder a perguntas, o mesmo tipo de circuito que mostramos num caso de organização de dados noutro setor.
Por onde começar
Quatro passos que qualquer construtora pode dar sozinha, com o que já tem:
- Escolha as últimas 10 a 15 obras fechadas. Para cada uma, registe quatro números: valor orçamentado, custo final, prazo contratado, prazo real. Se juntar isto demorar mais de um dia, esse é já um resultado: a informação existe mas não está acessível.
- Calcule o desvio médio por tipo de obra. Separe reabilitação, obra nova, obras públicas e privados. O objetivo é substituir o “costumamos cumprir” por um número medido, ao estilo do que o Green Book britânico faz com os projetos públicos.
- Aplique esse desvio como verificação da próxima proposta. O objetivo não é inflacionar o preço às cegas; é saber a que distância do seu histórico está a proposta que vai entregar, e decidir essa distância de forma consciente.
- Feche o circuito a cada obra que termina. Os quatro números entram no registo no fecho da obra, enquanto a informação está fresca. Ao fim de um ano, a classe de referência da empresa está viva e a melhorar sozinha.
Perguntas frequentes
Qual é a derrapagem média de custos numa obra?
Depende do tipo e da escala. No estudo de Flyvbjerg de 2002 sobre 258 grandes infraestruturas de transporte, a média em preços constantes foi de 44,7% na ferrovia, 33,8% em pontes e túneis e 20,4% em estradas. A McKinsey aponta, para grandes projetos de construção, derrapagens de custo que chegam a 80%. Para a obra corrente de menor dimensão não há estatística pública equivalente, e é precisamente por isso que o histórico de cada empresa é o melhor número disponível.
Porque é que as obras atrasam quase sempre?
Porque as estimativas de partida são sistematicamente otimistas. A investigação de Flyvbjerg atribui o padrão a dois fatores: viés de otimismo de quem planeia e incentivo estratégico a apresentar números baixos para ganhar o concurso ou a aprovação. Como os dois fatores atuam sempre no mesmo sentido, o desvio é quase sempre para cima, e manteve-se estável ao longo de cerca de 70 anos de projetos analisados.
As obras públicas em Portugal derrapam muito?
O Tribunal de Contas mediu, nos contratos adicionais de 2020-2022, um desvio líquido de 5,72% sobre 3,7 mil milhões de euros contratados, e 2022 foi o pior ano desde que há registo (2006). Este valor cobre apenas os aditamentos formais ao contrato; numa auditoria de 2009 a cinco empreendimentos concretos, o custo final ficou 52,6% acima do previsto.
O que é o reference class forecasting?
É orçamentar a partir do resultado real de projetos semelhantes já concluídos, em vez de partir da estimativa interna do próprio projeto. Foi formalizado por Flyvbjerg em 2006 sobre a base teórica de Kahneman e Tversky, e é usado oficialmente no Reino Unido e na Dinamarca na avaliação de projetos públicos.
Que dados preciso de guardar das obras anteriores para orçamentar melhor?
O mínimo são quatro números por obra: valor orçamentado, custo final, prazo contratado e prazo real, separados por tipo de obra. Com isso já se calcula o desvio médio da empresa. O passo seguinte é desagregar por capítulo (estrutura, acabamentos, subempreitadas), que é onde se percebe de onde vem o desvio.
O software de orçamentação não resolve isto?
Não sozinho. O problema não é a ferramenta de cálculo, é o ponto de partida: uma estimativa construída de dentro do projeto herda o otimismo de quem a faz, seja em Excel ou em software dedicado. A correção documentada é confrontar essa estimativa com o histórico medido, e isso exige que o histórico esteja organizado e acessível.
Se quiser saber qual é, de facto, o desvio médio das suas obras, uma conversa de 30 minutos chega para perceber que dados já tem e o que falta juntar. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.
Fontes
- Underestimating Costs in Public Works Projects: Error or Lie? — Flyvbjerg, Holm & Buhl, Journal of the American Planning Association, 2002.
- How Big Things Get Done — Bent Flyvbjerg & Dan Gardner, 2023.
- Reinventing Construction: A Route to Higher Productivity — McKinsey Global Institute, 2017.
- Global Construction Project Owner’s Survey: Climbing the Curve — KPMG, 2015.
- Global Construction Survey 2023: Familiar challenges — new approaches — KPMG, 2023.
- Obras públicas sofrem o maior desvio financeiro desde 2006 — ECO, sobre a auditoria do Tribunal de Contas aos contratos adicionais 2020-2022, 2023.
- Relatório 17/2009 — auditoria a empreendimentos de obras públicas — Tribunal de Contas, 2009.
- A Construção em 2023 e perspetivas para 2024 — AICCOPN, sobre dados do INE, 2024.
- Supplementary Green Book Guidance: Optimism Bias — HM Treasury, com base no estudo Mott MacDonald, 2002.
- Cost Estimate Classification System — Recommended Practice 18R-97 — AACE International, 1997 (revisões posteriores).
- From Nobel Prize to Project Management: Getting Risks Right — Flyvbjerg, Project Management Journal, 2006.